O tempo da polarização tóxica

Na era da rivalidade insidiosa e perversa, uma comparação com outros momentos parecidos na história do Brasil e com a realidade atual de outros países

Roberto Pompeu de Toledo, Veja

No quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, o homem do carro de boi representa a rendição do artista à realidade. Dom Pedro I não poderia estar tão engalanado. Vestia, segundo testemunhas, uma farda simples, e que só poderia estar suja e desmazelada depois da difícil subida da serra entre Santos e São Paulo. Idem os numerosos assessores e integrantes da guarda que figuram no quadro. Também não poderiam, nenhum deles, estar montados nos cavalos elegantes com que o pintor os presenteou. Mulas eram o habitual, e o recomendável, para enfrentar as durezas do trajeto. Já o homem que, no canto esquerdo do quadro, se põe à frente do carro de boi veste andrajos que mal lhe encobrem o peito, está descalço e protege a cabeça com um chapéu de palha. É o retrato sem dúvida fiel de profissionais como ele, nesse e em outros períodos da vida nacional. E ainda expressa uma outra realidade, mais importante até do que a aparência física. O homem volta-se como intrigado para aquela gentarada. Por que tanto barulho? Que diabo deu neles? Digamos que o homem do carro de boi é o povo brasileiro.

Está na moda, entre os produtores de dicionários de língua inglesa, eleger a “palavra do ano”. O dicionário Oxford escolheu para este ano a palavra “toxic”, usada em múltiplos contextos — o machismo tóxico, o meio ambiente tóxico, as relações sociais, a cultura. No Brasil a palavra “polarização”, pela fidelidade com que representa a realidade política e social, e pela frequência com que apareceu na imprensa, nos estudos acadêmicos, nos debates e nas conversas, mereceria o título. E bem poderia ser acompanhada pelo adjetivo “tóxico”, pois a polarização de que se fala é sempre tóxica, quer dizer: venenosa, insidiosa, perversa.

Houve um tempo em que o povo brasileiro, tal qual o carreiro de Pedro Américo, assistia de longe, e indiferente, aos solavancos da política. Por que tanto barulho hoje? Que houve com a sociedade para apresentar-se tão dividida, e tão irascível, à convocação para as eleições de 2018? Os candidatos que representavam um ponto de equilíbrio entre os extremos foram impiedosamente dispensados pelo eleitorado. Ficaram para o segundo turno o candidato do PT, partido sobre o qual pesava a suspeita de voltar com sede de vingança pelos reveses do impeachment da ex-presidente Dilma e da prisão do ex-presidente Lula, e o ex-capitão do Exército que incluía em sua bagagem, além do antipetismo, do antiesquerdismo, do antiavanço nos costumes, do anticultivo dos direitos humanos e do antiprogresso em questões ambientais e indigenistas, o saudosismo da ditadura militar. Eram duas visões de um futuro desassossegado. Como chegamos a esse ponto?

Este texto explorará o tema em três vertentes: 1. A atual polarização comparada a outros momentos de polarização no passado brasileiro; 2. A polarização brasileira comparada a polarizações em outros países; 3. A polarização medida entre o ponto em que pode ser saudável e o extremo em que se torna ruinosa.

O homem do carro de boi teve sua tradução literária na famosa frase com que, 67 anos depois da Independência, o jornalista Aristides Lobo descreveu a reação popular à proclamação da República: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”. Antes, o cientista francês Louis Couty já havia radicalizado: “O Brasil não tem povo”. Não é assim tão fácil que uma população se eleve a povo, qual seja: uma sociedade orgânica, e politicamente ativa. A Revolução de 1930, ao acabar com o rame-rame das eleições de cartas marcadas da República Velha, diminuir o poder dos “coronéis” nas vastidões rurais do país e conferir direitos à classe trabalhadora, abre caminho para o surgimento no país de algo parecido com “povo”. Seguiram-se momentos de históricas polarizações, a começar por uma revolução, a de São Paulo em 1932. O país também conheceu a modalidade de polarização entre ideologias extremas que deu a volta ao mundo nesse período. Em 7 de outubro de 1934, um domingo, uma manifestação de integralistas (a versão brasileira dos fascistas) na Praça da Sé, em São Paulo, todos de verde e em formação militar, foi confrontada por uma contramanifestação comunista. Saldo: cinco mortos, dezenas de feridos.

A polarização atual não registra casos de enfrentamentos armados, como o da Praça da Sé, nem muito menos acena com a enormidade da guerra civil, como em 1932. Mesmo assim produziu episódios sangrentos, o primeiro dos quais o atentado a facada no candidato Jair Bolsonaro. Outro caso, que não costuma ser abordado no mesmo contexto, mas que a um certo olhar nele caberia ser encaixado, é o assassinato de Marielle Franco. A motivação pode ter sido de bandidagem pura e simples, trama de traficantes, de milicianos, ou uma combinação entre os dois. Mas Marielle, tal qual se revelou em sua plenitude depois do episódio, era um poderoso símbolo político, o da ascensão de uma classe, de uma raça, de um gênero, de uma atuação pública e de um estilo de vida que, hoje ficou claro, incomoda muita gente. A raiva é um dos ingredientes — dos mais tóxicos — da atual polarização. Em 1963-1964, nos meses que antecederam o golpe, tivemos uma polarização nos moldes direita-esquerda como a atual. Houve raiva como neste último ano? Parece que não no nível rude e personalizado das diversas manifestações em que o boneco de Lula era exibido em trajes de presidiário.

A raiva vinha sendo cevada de longe. Há quase unanimidade entre os analistas em que a polarização data das manifestações de 2013. “Desde a crise política iniciada em 2013, o que se pôde observar no comportamento dos atores políticos e institucionais, assim como no dos setores mais polarizados da sociedade brasileira, foi uma mudança de padrão da condução de seus conflitos políticos”, escreve o jurista Oscar Vilhena Vieira em seu novo livro, A Batalha dos Poderes. A competição, para ele, tornou-se “mais dura, intolerante e radicalizada”. Em 19 de junho de 2015, o chão da Avenida Higienópolis, em São Paulo, amanheceu com uma gigantesca pichação: “Jô Soares morra”. O pedido dirigia-se ao morador do edifício situado em frente. Dias antes, Jô cometera o pecado de fazer uma entrevista com a presidente Dilma Rousseff. “A primeira providência que tomei foi não seguir o conselho e não morrer”, diz ele, no novo volume de suas memórias. Em 3 de junho de 2017, foi a vez de outra pessoa conhecida, a jornalista Miriam Leitão, sofrer o fogo da indignidade, agora vindo dos boçais da banda contrária. A azoada contra ela começou no aeroporto de Brasília, da parte de um grupo de vinte petistas que, convenientemente trajados com camisa vermelha, voltavam da convenção nacional do partido, e prosseguiu durante o voo até o Rio de Janeiro. Sucederam-se os “gritos, slogans e cantorias”, acompanhados por “olhares de ódio ou risos debochados”, relatou a própria Miriam em sua coluna no jornal O Globo. “Houve um gesto de tão baixo nível que prefiro nem relatar aqui.”

Note-se que eram pessoas investidas de funções oficiais no partido, como delegados a uma convenção. Note-­se também que, somados, os dois casos mostram uma convergência entre os extremos: devotam igual raiva à imprensa profissional e independente. Sofrem mais, pela visibilidade que lhes confere a presença de câmeras e microfones, os profissionais da televisão, com destaque para a TV Globo, alvo preferencial tanto de petistas quanto de bolsonaristas. O repórter da Rede Globo Tonico Ferreira, aos 51 anos de profissão, dos quais 37 na emissora, decidiu aposentar-se em abril por causa, entre outros motivos, da hostilidade de que é frequente vítima nas ruas. “Nos últimos tempos, toda manifestação é um problema de segurança para os jornalistas”, disse ele ao jornal Folha de S.Paulo. “Pode ser do Bolsonaro, do PT, é pressão enorme para as equipes de rua. Quando junta gente, se você cai, todo mundo dá um pontapé anônimo.”

Aos períodos de polarização é indispensável a presença do povo na rua. O mês de março de 1964 começou com as “marchas da família com Deus pela liberdade”, contra o governo João Goulart, em diversos estados, e no dia 13 tomou o rumo contrário no comício da Central do Brasil, em torno do presidente. A imprensa da época registra presença maciça, de até 300 000 na primeira das marchas da família, em São Paulo, e de até 200 000 no comício pró-Jango. Em 1968 ganhou o nome de Passeata dos Cem Mil a maior das sucessivas manifestações no Rio de Janeiro contra o governo militar. A acreditar neles (chutava-se mais do que hoje, nos cálculos), são números expressivos para um país que foi de 72 milhões de habitantes, em 1960, a 93 milhões, em 1970, não muito distantes dos que se estimaram hoje, num país de 210 milhões, para as manifestações de 2015 contra o governo Dilma. Não é pela presença nos atos políticos, portanto, que se considerariam as manifestações de hoje maiores do que as do passado. O que faz a diferença são as redes sociais, a atrair, para o bem ou para o mal (principalmente para o mal, consideradas a grosseria e a estultícia reinantes nesses ambientes), a atuação maciça da população.

Tudo considerado, temos três critérios por meio dos quais avaliar se a polarização de hoje é maior do que as polarizações passadas. O primeiro é a dose de extremismo das posições, e nesse caso temos empate entre o momento atual e o que dele mais se aproxima, o ambiente de 1964: em ambas as ocasiões, configurou-se um confronto nítido e inconciliável entre direita e esquerda. O segundo é o nível de participação da população, e aqui as redes sociais fazem a diferença em favor do momento atual. O terceiro é o teor de raiva inerente à disputa, fator com alto grau de subjetividade, mas que, até pelo depoimento de pessoas que viveram um momento e o outro, parece pender para a polarização presente.

“Com uma rapidez que deixaria perplexas futuras gerações, a luta na Europa entre fascismo e democracia mal havia terminado e já fora substituída por uma nova ruptura, a que separava comunistas de anticomunistas.” A citação é do historiador inglês Tony Judt, em seu monumental Pós-Guerra. Com rapidez que nos torna perplexos a nós, habitantes do planeta Terra neste ano de 2018, o mundo passou da bipolaridade Estados Unidos-União Soviética para, apenas trinta anos depois, a bipolaridade entre Estados Unidos-China. Parecia destinado a vida tão longa, e no entanto durou tão pouco, o período de domínio solitário dos americanos. A prisão no Canadá, a pedido dos Estados Unidos, no início de dezembro, da executiva chinesa Meng Wanzhou, filha do fundador da empresa de tecnologia Huawei e sua diretora financeira, levou-nos de volta a ações habituais na Guerra Fria, quando americanos e soviéticos se davam a sequestrar pessoas e aviões espiões um do outro. Desenhou-se no horizonte, mais nítida do que nunca, a ultra-hipermegarrivalidade entre dois países em que ao poder militar se soma uma equiparação tecnológica da qual a China parece cada vez mais perto.

À sombra dessa mãe de todas as polarizações desenham-­se as diversas polarizações internas, nos países. É o que não falta, mundo afora. Abordemos as três que nos interessam mais de perto — as da Venezuela, da Argentina e dos Estados Unidos. Elas oferecem modelos diante dos quais nossa polarização alterna movimentos de atração e repulsa. A Venezuela foi um dos fantasmas acionados contra o PT na campanha. E com razão: o partido de Lula entrincheirou-se na solidariedade para com o regime dito bolivariano, num estratagema de deliberada cegueira diante do desastre político, econômico e social ali em curso. Some-se a isso a falta de autocrítica aos desatinos da política econômica de Dilma e estava servido, farto e saboroso, o prato com que os adversários alimentaram o prognóstico de que, com a vitória do PT, o Brasil se tornaria uma nova Venezuela.

A polarização no país de Hugo Chávez e Nicolás Maduro teve por resultado a asfixia gradual da oposição e a instalação da ditadura ao modo conta-gotas vigente — uma eleição fraudada aqui, um texto constitucional invertido ali, um líder opositor preso acolá, um ato de censura à imprensa mais adiante. Um dos livros do ano é Como as Democracias Morrem, dos professores americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Os autores ensinam que, com a saída de moda dos golpes com tanques, à maneira do Brasil 1964, ou com bombas (Chile 1973), hoje é assim que regimes como os de Recep Erdogan, na Turquia, Viktor Orbán, na Hungria, ou Rodrigo Duterte, nas Filipinas, se aproveitaram de uma situação democrática para dissolvê-la passo a passo. Entre eles, Duterte é o mais descarado. No começo de dezembro disse num comício, referindo-se ao alto clero católico, religião predominante no país: “Esses bispos que vocês têm, matem eles. São idiotas inúteis. Tudo o que fazem é criticar”.

O modelo venezuelano de polarização tem origem no governo. Em sua posse na Presidência, em 1999, Chávez já disse a que veio, ao jurar sobre “essa moribunda Constituição”. Ele não perdeu ocasião de fustigar a oposição, ameaçá-la e acuá-la, quando não batia, com suas milícias, prendia, com sua polícia, e, pela mão de uma Justiça subjugada, condenava. O modelo diferiu, nesse particular, do caso brasileiro, no qual a origem remota da atual polarização está na oposição, mais propriamente no gênero de oposição adotado pelo PT — intransigente, arrogante, exclusivista e dono da chave da história. A derrota eleitoral do PT afasta o fantasma da venezuelização pintado por seus adversários. Resta que o bolsonarismo, tão distante ideologicamente, tem um ponto de contato com o chavismo na tendência a misturar o governo com o estamento militar. No começo da era Chávez, Bolsonaro fascinava-se com ela. “Chávez é uma esperança para a América Latina e gostaria muito que essa filosofia chegasse ao Brasil”, disse o então deputado, em 1999, numa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. O que o fascinava, claro, era a ascensão dos militares ao poder. Continua fascinando. Presidente eleito, encheu o ministério de militares da reserva e tem nas cerimônias militares seus compromissos mais frequentes.

Na Argentina, o modelo de polarização ampara-se na dicotomia entre peronismo e antiperonismo. Mais de seis décadas depois de sua primeira e mítica passagem pelo poder (1946-1955) e mais de quatro depois da fracassada segunda vez (1973-1974), Perón continua vivo e conduzindo seus seguidores cada vez melhor, assim como Carlos Gardel continua vivo e cantando cada vez melhor. Para o escritor Marcos Aguinis, no livro O Atroz Encanto de Ser Argentino, o peronismo não é um partido político nem apenas um “movimento”. É “crença, sonho, conduta e até folclore”. Para Jorge Luis Borges, os peronistas não são nem bons nem maus; são “incorrigíveis”. O pêndulo entre peronismo e antiperonismo domina a vida argentina já vai para dois terços de século, e seu resultado mais concreto é travar a sociedade e os diversos governos num estéril ponto morto. Nem se recupera um passado idealizado nem se avança sem amarras rumo ao futuro.

A possibilidade de um peronismo à brasileira surgiu no horizonte, nos últimos tempos, em torno da figura de Lula. Foi impressionante que o ex-presidente, mesmo acusado de múltiplos crimes, mesmo depois de condenado em primeira instância, e mesmo depois de preso, ainda liderasse as intenções de voto para a Presidência, chegando a quase 40% enquanto ainda pendia na Justiça Eleitoral o julgamento sobre a legalidade de sua candidatura. E foi impressionante como, impedido de concorrer, catapultou o substituto pouco conhecido à disputa do segundo turno. A eleição de 2018, em paralelo ao duelo entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, magnificou o confronto entre petismo e antipetismo. Eis-­nos a replicar o modelo argentino entre ser alguma coisa e ser “anti” essa coisa. O petismo parece enfraquecido depois da derrota eleitoral. Resta saber se a jararaca, como Lula apelidou a si próprio, desta vez foi ferida na cabeça, ou se ainda terá forças para reconstituir-se num mito à altura do argentino, envolto, como o outro, num misto de saudade do passado e miragem de um futuro idílico.

Nos Estados Unidos, a polarização atual é produto de uma raiva nascida à direita, no seio da intolerância com os governos democratas de Bill Clinton e de Barack Obama, no ambiente de acirramento das questões comportamentais, como o aborto, e sociais, como a imigração, e na apoteose da criação de um movimento como o Tea Party. Se é para escolher o momento preciso em que a polarização mostrou sua face mais traiçoeira, para a partir daí só avançar, digamos que foi o dia de 1997 em que Monica Lewinsky recebeu da amiga e confidente Linda Tripp o conselho de não lavar o vestido azul com a marca fatal do sêmen de Clinton, prova da relação entre o presidente e sua estagiária no escondidinho do Salão Oval da Casa Branca. Linda Tripp é o retrato acabado do que ia pela alma das frustrações conservadoras. Em 1999, Clinton escapou por pouco do processo de impeachment construído com base em seu caso com Lewinsky.

A polarização não nasceu com Donald Trump, portanto. Mas não se menospreze o aporte que o atual presidente vem lhe oferecendo, com doses de personalismo, impaciência com a crítica, linha dura com o imigrante, aliança com os religiosos, freio nos avanços comportamentais e simpatia com o que por lá se chama de “supremacia branca”. O coquetel trumpiano agrada à direita brasileira e a atrai. O estilo espalhafatoso de Trump, confrontador, viperino, trombeteado pelo Twitter, tem um admirador e um espelho no Bolsonaro dos lives via internet. Nem a esquerda americana observa o norte socialista que é ainda a bússola do PT nem a direita compartilha a reverência ao militarismo que é apanágio da direita brasileira. Lá ainda é sagrado que o secretário da Defesa seja um civil, para simbolizar a predominância do poder civil sobre o militar. Há no entanto traços de coincidência entre uma polarização e a outra, e temas em comum, como o aborto, as questões de gênero, os “valores familiares”, a imigração (agudo em Roraima, por exemplo) e o acesso às armas, alguns deles importados por força da tendência brasileira à imitação do outrora chamado “grande irmão do Norte”.

Até que ponto a polarização pode ser saudável? E a partir de que ponto se torna ruinosa? Os conflitos são inerentes à democracia. O regime existe para processá-los e resolvê-los de forma pacífica, seja pela negociação que busque pontos de contato, seja pela vitória de um que não descarte nem humilhe o outro. Falta de conflito é ditadura, seja pela intimidação, pela censura, pela prisão ou pelo aniquilamento físico dos oponentes. Se o conflito é inerente à democracia, a polarização, que é o enrijecimento das posições e seu aquartelamento em duas facções, sem muita coisa de relevante no meio, pode ser tolerável enquanto regulada por instituições fortes. É o que ocorre nos Estados Unidos. Por mais que Trump se rebele contra a imprensa e chame de fake news as notícias que lhe desagradem, não se concebe que vá fechar o The New York Times. É o que não ocorre na Venezuela, onde o governo fecha estações de TV inoportunas.

São sem dúvida ruinosas as polarizações que terminam em golpes ou em guerras civis, mas, claro, essa sua qualidade só se revela a posteriori. A polarização americana em torno da escravidão, no século XIX, revelou-se tão impossível de resolver pelas vias institucionais que resultou na Guerra da Secessão. A polarização brasileira de 1964 hoje pode ser julgada tão ruinosa que resultou num golpe e numa ditadura; e tão, tão enormemente ruinosa, que poderia ter resultado em outro tipo de golpe e outro tipo de ditadura, caso tivesse vencido o lado contrário. Polarizações também são ruinosas quando geram paralisia. É o que ocorre há décadas na Argentina. O empate impede o país de sair do lugar, premido entre governos peronistas que desandam na demagogia, na corrupção e na incompetência (Isabelita, Menem, Kirchners) e governos antiperonistas que não logram sequer chegar ao fim (Frondizi, Alfonsín, De la Rúa). A polarização brasileira será julgada por seu desfecho, se desfecho houver. Se não houver, é porque foi contida nos quadros institucionais e seu andamento se dará na cadência desse benfazejo produto da ordem democrática que é a alternância no poder.

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https://veja.abril.com.br/politica/o-tempo-da-polarizacao-toxica/

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Mercado financeiro investe em pesquisas eleitorais

Os agentes do mercado financeiro são altamente interessados pelas projeções das pesquisas eleitorais para presidente da República e agora cada vez mais instituições estão financiando pesquisas eleitorais. Pesquisas movimentam os indicadores financeiros, como dólar, juros, aplicações, inflação. Também são utilizadas para indicar as doações aos candidatos. A tendência ficou mais clara principalmente a partir da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2002, que implantaria medidas à esquerda, levantando suspeitas entre financistas.

Entre o primeiro e o segundo turnos daquele ano, conforme as pesquisas apontavam a vitória de Lula, o dólar atingiu o recorde de R$ 4, mostrando a insatisfação dos investidores com o candidato petista. Naquele ano, a moeda norte-americana acumulou alta de 53,2%. A calmaria só foi se estabelecendo com a Carta aos Brasileiros, assinada em junho de 2002 por Lula, em que declarava que evitaria medidas extremas e respeitaria contratos. O apoio do candidato do PT a um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi outra medida neste sentido. As instituições financeiras preferiam a eleição do seu opositor, José Serra (PSDB), que saiu derrotado. A eleição de 2002 representou um pico em relação aos saltos financeiros. De lá para cá, com a reeleição de Lula em 2006 e com as duas eleições de Dilma Rousseff as instabilidades ocorreram, mas foram menores –considerando apenas momentos eleitorais.

Até a eleição de 2018, o mercado monitorava o comportamento dos candidatos pelas pesquisas tradicionais realizadas por Datafolha, Ibope (agora Ipec), Sensus, mas a partir daquela eleição começaram também a investir em pesquisas. A corretora XP foi a primeira. Naquele ano, a XP iniciou a parceria com o Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas), capitaneado por Antonio Lavareda, cientista político que atuou em campanhas de candidatos. A parceria XP/Ipespe vigora até agora.

A XP “fez escola” e outras três instituições financeiras estão à frente de levantamentos atualmente. A Genial Investimentos financia a pesquisa da Quaest e a revista Exame, que pertence ao banco BTG Pactual, tem acordo financeiro com a empresa Ideia. As três pesquisas foram as primeiras a vir a público neste início de 2022. O banco digital Modalmais se aliou à Futura, mas há poucos dias a XP adquiriu a empresa, o que coloca em dúvida a continuidade do financiamento da pesquisa por esta corretora. XP, Genial e BTG têm sede, claro, na avenida Faria Lima, que concentra as financeiras em São Paulo. Não longe dali, o Modalmais fica na avenida Juscelino Kubitschek.

Os resultados dessas pesquisas são amplamente veiculados em sites, jornais e por emissoras de TVs, o que confere alta importância a seus dados por influenciarem na decisão de voto de eleitores. Mas a desconfiança é se clientes dessas instituições recebem os resultados antecipadamente e, assim, obtém prioridade para manipular seus investimentos conforme a dança dos candidatos. Por enquanto, as intenções de voto estão estáveis, mas no futuro pode haver instabilidades.

Em reportagem recente publicada pela mídia tradicional, as quatro financeiras informaram que divulgam ao público imediatamente após fecharem os resultados e negaram acesso privilegiado ou especulação.

Quanto ao comportamento eleitoral dos pré-candidatos à Presidência, até agora os resultados de todas as pesquisas são similares: Lula à frente, com chance de vitória no primeiro turno, seguido de longe pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) e em seguida por um pelotão de candidatos com baixos índices de intenção de votos.

Mesmo que a pontuação não seja exatamente a mesma, os índices se aproximam se aplicadas as margens de erro. Pelas pesquisas que vieram a público sobre o primeiro turno, entre 12 e 14 de janeiro, o ex-presidente Lula aparece com 45% na Quaest, enquanto Bolsonaro recebeu 23% das intenções de voto. Na XP/Ipespe, Lula tem 44% e Bolsonaro, 24%. Na Exame/Ideia, Lula aparece com 41% e Bolsonaro, com 24% –como a margem de erro é de três pontos percentuais nesta pesquisa, o líder do PT teria até 44%, aproximando-se dos resultados das demais empresas.

Na comparação com os dados apurados em dezembro por Ipec (14/12) e Datafolha (16/12) Lula leva vantagem: nos dois levantamentos, o líder do PT tem 48% das intenções de voto e venceria no primeiro turno. Se calculada a margem de erro nos dois casos, Lula teria até 50%, acima dos resultados das financeiras. Bolsonaro recebeu 22% (Datafolha) e 21% (Ipec), similares aos demais. O levantamento do Datafolha foi abrangente: entrevistou presencialmente 3.666 eleitores no país e o Ipec viu 2.200 pessoas também de forma presencial.

Em terceiro e muito distante dos dois primeiros, o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro (Podemos) ficou com 9% na Quaest, no Ipesp e no Datafolha, chegando a 11% na Ideia –índices similares pela margem de erro. A entrada de Moro na disputa, após dois meses do lançamento da campanha e com ampla cobertura da mídia, principalmente televisiva, indica que ele não conseguiu modificar o cenário eleitoral. Mesmo o ex-governador Ciro Gomes (PDT) continuou nos 5% a 7%.

Quanto custa uma pesquisa

Os custos das pesquisas eleitorais levam em conta, principalmente, o tipo de entrevistas, se presenciais (tidas como mais confiáveis) ou por telefone, além da abrangência da amostra. O levantamento da Quaest divulgado em janeiro custou R$ 268,7 mil para a realização de 2.000 consultas presenciais. O Ipespe cobrou bem menos, R$ 42 mil, mas realizou apenas mil consultas por telefone. Na Ideia, o custo foi de R$ 27,97 mil para 1.500 entrevistas telefônicas.

Entre os institutos tradicionais, o jornal Folha de S.Paulo financia as pesquisas do Datafolha enquanto o Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica, criado por ex-executivos do Ibope) vem atuando com recursos próprios e neste ano estas empresas ainda não registraram pesquisas no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O registro é obrigatório, para dar credibilidade aos resultados, e a divulgação sem este registro leva a penalidades. Informar o TSE sobre os vários detalhes da realização de pesquisas, o que deve ser feito cinco dias antes de vir a público, é uma praxe em anos eleitorais.

Carmen Munari é jornalista, foi da Folha de S.Paulo, Reuters e Valor Econômico

“Guto Silva foi um grande interlocutor do Governo junto à Assembleia”, diz Romanelli

O deputado Luiz Claudio Romanelli (PSB) recebeu nesta quinta-feira (13) o ex-secretário chefe da Casa Civil, deputado Guto Silva (PSD), que está retornando ao Legislativo depois de três anos à frente da principal pasta do Governo do Estado.

“O Guto Silva foi um grande interlocutor do Governo do Estado junto à Assembleia. Coordenou muito bem as ações do Governo em diversas áreas, dinamizou a gestão da pasta e acelerou processos que resultaram em obras e investimentos por todo o Paraná”, disse.

“Desejo ao Guto Silva um bom retorno e que tenhamos um 2022 muito produtivo”, acrescentou.