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Guayrá, sou deus serpente!

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Onde já se viu, jogar água no rio (Thadeu)

Nada tira da minha cabeça que foram aqueles três dias de julho de 1982 que mudaram minha vida para sempre. Estava eu, com 20 anos, meio perdido no meio disso tudo, tentando uma veia poética, embora infantil e sem muito lirismo, quando me deparei com Quarup – Adeus 7 Quedas ou ainda Sete Quedas Viverá! Era um protesto, embora tardio, pela construção da Usina de Itaipu que acabou com o Parque Nacional de Sete Quedas e o maravilhoso conjunto de saltos no rio Paraná. Posteriormente, um amigo, Luiz Rolon, médico paraguaio, criador do museu M’borere, em Iguazu (Argentina), me dizia que junto com as Cataratas do Iguaçu, as Sete Quedas formavam um vértice tão incomum que numa das pontas, ainda não descoberta, se encontra um santuário guarani.

Foram três dias épicos em Guaíra que reuniu música, teatro, dança, poesia, comida natural e foi embrião ou nascituro do movimento ambientalista do Paraná. Lá estavam Roberto Ribas Lange e Teresa Urban – a idéia do Quarup foi deles num encontro numa praça em Curitiba – e Emidio Pucci Júnior que organizou os três dias no palco do ‘festival’. Lembro da dupla Zezé e Simões, da Blindagem, da Rita Pavão dançando com os seios nus, e da peça Deus nos Acuda, com os atores mostrando a bunda para a plateia.

 

Trecho de um dos dois artigos que o jornalista Zé Beto Maciel, o ZBM, escreveu para a última edição da revista Helena, da Secretaria de Cultura do Paraná. Clique no (mais…) e confira a íntegra.

 

Guayrá, sou deus serpente!

Onde já se viu, jogar água no rio (Thadeu)

Nada tira da minha cabeça que foram aqueles três dias de julho de 1982 que mudaram minha vida para sempre. Estava eu, com 20 anos, meio perdido no meio disso tudo, tentando uma veia poética, embora infantil e sem muito lirismo, quando me deparei com Quarup – Adeus 7 Quedas ou ainda Sete Quedas Viverá! Era um protesto, embora tardio, pela construção da Usina de Itaipu que acabou com o Parque Nacional de Sete Quedas e o maravilhoso conjunto de saltos no rio Paraná. Posteriormente, um amigo, Luiz Rolon, médico paraguaio, criador do museu M’borere, em Iguazu (Argentina), me dizia que junto com as Cataratas do Iguaçu, as Sete Quedas formavam um vértice tão incomum que numa das pontas, ainda não descoberta, se encontra um santuário guarani.

Foram três dias épicos em Guaíra que reuniu música, teatro, dança, poesia, comida natural e foi embrião ou nascituro do movimento ambientalista do Paraná. Lá estavam Roberto Ribas Lange e Teresa Urban – a idéia do Quarup foi deles num encontro numa praça em Curitiba – e Emidio Pucci Júnior que organizou os três dias no palco do ‘festival’. Lembro da dupla Zezé e Simões, da Blindagem, da Rita Pavão dançando com os seios nus, e da peça Deus nos Acuda, com os atores mostrando a bunda para a plateia.

Guaíra, Guayrá!
Sou o Deus serpente
Que promete um dia voltar
Não digo se volto
De asas ou de lotação
Não sei se volto na rima
Ou se volto pelo chão
Se na hora do almoço
Ou na hora da canção
Sou o deus serpente
Que geme… que pulsa… no rio
Sou deus que chora…
Que está morto por um fio
Adeus 7 Quedas
(Deise/Guarapuava/PR – 25/07/82)

O que cabia a mim, inebriado com aquela situação, no meio de três mil pessoas. Estava junto com amigo, Marco Boldrini, da mesma idade, e já tínhamos copilado um manifesto explicando, num jornal de Foz do Iguaçu, um pouco dos conceitos de ecologia, e o estalo veio quando pegamos um rolo de papel pardo, colocamos no obelisco a 10 metros do palco, no fervo da moçada e escrevemos “Dê seu recado”. Não faltaram recados, poesia e protesto contra a Itaipu e contra o regime militar.

“A palmeira estremece/palmas que ela merece” (Leminski), “abaixo o represão/ mais amor e mais tesão”, “mas que merdas/vão acabar com as 7 quedas”, “ou amassa tudo/ou não amassa nada/ com massa tudo/sem as massas, nada”, “por favor/um extintor/quero apagar minha dor”.

O mural funcionou bem. Estava feliz, entrava em contato com os grupos ecológicos gaúchos – Em Nome do Amor a Natureza, Grupo Azul Terra Virgem – e o clima, apesar do sentimento de perda, era de comunhão e mal sabíamos que estávamos sendo monitorados, vigiados por agentes do serviço de informações. Depois saberíamos, com a dureza, o choque e o vilipêndio daquilo que criamos ali, em Sete Quedas. No mural, Enrique, um chileno hippie, escreveu o seguinte:

Hay una leyenda sobre un pajaro
que canta canta solo una vez en su vida
y lo hace mas dulcemente
que qualquier otra criatura
sobre la face de la tierra
desde el momento en que abandona
el nido, busca un arbol espinoso,
y no descansa hasta encontrar-lo.
Entonces, cantando entre las cruelas ramas,
se clava el mismo en la espina mas larga y afilada.
Y al morir, envuelve su agonia em un canto
mas bello que el de la Alondra y el Quisenor.
Un canto sublime al precio de nuestra existencia.
Pero todo el mundo enmudece para escuchar,
y Dios sonrie en el cielo. Pues lo mejor solo se
compra con grandes dolores….
al menos, asi dice la leyenda.

O encontro foi tão emblemático que dele se formou, pelo menos em Foz, a Adeafi (Associação de Defesa e Educação Ambiental de Foz do Iguaçu) e o Artemanha – Grupo Ambiental, Artístico e Cultural. Nas performances e no dia-a-dia do acampamento – foram mais de três mil pessoas nos três dias, lembro das pontes sobre os saltos, das piscinas que se formavam entre as ilhas e as pedras. Lembro ainda do refrão de uma música “eles só dizem que deixem, que deixem isso tudo pra lá” e de um pai irrompendo o palco, em plena apresentação de uma banda, tomando o microfone e vociferando: – Elizabete, são nove horas da noite, volte imediatamente para a sua casa. Se a Elizabete voltou para casa, eu não sei.

O que sei é que dois dias antes, eu peguei um ônibus na rodoviária de Foz junto com meu primo, Helio Santa Cruz, e seguimos para Guaíra. Lá encontramos o Marco Boldrini e um pessoal de Foz do Iguaçu, a turma do Salvatti, que locaram um ônibus para participar do encontro. No mural, o pessoal de Foz lembrou de Gunga, um poeta, que morreu muito cedo, num acidente de carro. “Curta a vida porque a vida é curta” já havia ganhado os muros em pichações e também foi registrado no mural.

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Eu e o Marco Boldrini estávamos sobre influência dos haikais de Leminski e Thadeu – tic tac/estique/ou estaque, onde já se viu/jogar água no rio, entre você/ e meu ego/me entrego – mas registramos outras líricas legais: em outros astrais/reinam visuais/totalmente gringo/ao de vocês, um olho cego vageia/procurando por um tal de malaquias, e fome, miséria, cultura/com a bunda fora/no meio da rua. Fátima Cassol, moradora de Guaíra, deixou um depoimento emocionante: 7 Quedas – Te amei ontem/ te amo hoje e/te amarei sempre!/Até o final dos tempos!/ 7 Quedas: parte do meu ser morrerá/junto com a tua lamentável morte!/ Saudades, oh quantas saudades/Tu deixarás!/Meu coração está em chamas!/Adeus, adeus, para sempre!

O que aconteceu, em seguida, em plena tarde de domingo, quase no final do encontro, nem te digo. Estávamos absortos, assistindo a um show, quando nos avisaram: – roubaram o seu mural. Como? O que? Só vi três pessoas, uma mulher e dois homens, saindo em desabalada com o nosso mural enrolado nos braços. Uma correria só. É claro, investi sobre as barracas até encontrar a moça com o meu mural. Ela e um outro cara, com a arrogância comum de autoridades, esfregaram os distintivos na minha cara: – Polícia Federal, o material está apreendido e você está preso.

Um furdúncio só. Puxa daqui, empurra dali e eu e o Marco Boldrini fomos salvos por um guarda-parque, o cabo Ari. Meu colega, que fazia parte do PDS, mas que tínhamos feito movimento estudantil no ensino médio. O cabo Ari fingiu nos prender e nós, desolados, fomos chorar no microfone do palco. Não deu outra. Em poucos minutos, fizeram um outro mural e os arapongas se esqueceram que o Marco Boldrini tinha registrado quase tudo no seu caderno. “Seguinte cara: não esquenta pelo motivo dos homens ter pego o teu mural. Esse vai ficar dez vezes mais legal. Falô!”, escreveu uma certa Adriana. E 30 anos depois, eis aqui um pouco do seu registro. Adeus Sete Quedas!

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