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Bloco de papel

(Mendonza-ARG, 29/06/2012) Presidenta Dilma Rousseff durante reunião da cúpula extraordinária de Chefes de Estado da UNASUL. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Criada em 2008, Unasul (União de Nações Sul-Americanas) está em estado agonizante

Editorial, Folha de S. Paulo

Organismos supranacionais servem ao propósito de buscar soluções para problemas enfrentados por seus membros, sem se deixar influir por ideologias de governos de turno. A Unasul (União de Nações Sul-Americanas) trilhou caminho oposto desde o nascedouro, o que em larga medida explica seu atual estado agonizante.

Criado em 2008, o bloco não adveio de uma articulação estruturada entre todos os países da região, mas sim de um projeto, encabeçado pelo venezuelano Hugo Chávez, de se contrapor à OEA (Organização dos Estados Americanos) e, mais diretamente, aos Estados Unidos.

Recorde-se que estava em curso o auge dos regimes ditos bolivarianos, apoiados à época por Brasil e Argentina, nas figuras dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Cristina Kirchner.

O enviesamento inato da Unasul se faria notar em vários momentos de crise do subcontinente, em especial na omissão quanto a investidas dos líderes amigos contra a oposição ou a imprensa —isso quando não se endossavam as medidas autoritárias.

Não surpreende, pois, que o órgão tenha fracassado em seu papel de mediador de contendas regionais, dada sua parcialidade. Com a mudança dos ventos políticos e o decorrente declínio do arco bolivariano, era previsível que rumasse para a irrelevância.

Em abril, metade dos países-membros, entre eles o Brasil, já havia suspendido sua participação devido a um impasse de mais de um ano com a Venezuela sobre a escolha de um novo secretário-geral.

Na última terça (31), o chefe de gabinete, que presidia o bloco em caráter interino, renunciou, acusado por colegas de assédio sexual e moral e de mau uso de recursos.

Reportagem desta Folha expôs com crueza o abandono da instituição. Sem comando, só com 2 de 5 diretores, funciona com menos de um quarto do orçamento previsto para cobrir seus custos. O número de empregados caiu de 48 para 27 —estes, invariavelmente ociosos, passam o tempo na internet.

Há risco até de se perder a sede, em Quito, doada pelo então presidente Rafael Corrêa. O novo mandatário equatoriano, Lenín Moreno, antes afilhado e hoje desafeto de Corrêa, quer o prédio de volta.

É saudável que a América do Sul disponha de um organismo para lidar com questões transnacionais mais específicas, sem prejuízo de instâncias como a OEA.

Urge, portanto, reformar a Unasul ou mesmo extingui-la para que surja um ente de fato representativo da região. O clube chavista de outrora não tem mais razão de existir.

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