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Baê la porte, chera’á? – por Zé Beto Maciel‏

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Tal qual escrevem Wilson Bueno, em Mar Paraguayo, e Douglas Diegues, em Dá Gusto Andar Desnudo por Estas Selvas, cresci envolto a um caldeirão lingüístico que só fez aumentar ao passar dos anos. É assim mesmo. Tenho meus próprios códigos verbais e o mesmo acontece com qualquer pessoa em Foz do Iguaçu. Inexoravelmente, fala uma ou duas línguas a mais além do português, ou até uma mistura delas – o chamado jopara. A tríplice fronteira é uma torre de babel onde brasileiros, argentinos, paraguaios, latinos, árabes, chineses e coreanos dobram a língua junto com os descendentes  de alemães e italianos – os primeiros migrantes  – e outras tantas etnias que se radicaram na região.

 Trecho do artigo Baê la porte, chera’á?*, do jornalista Zé Beto Maciel, na última edição da revista Helena. Leia a seguir a sua íntegra.

 

 

Baê la porte, chera’á?*

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Línguas unem, diversificam hábitos e culturas, e tornaram esse fantástico canto do Cone Sul num peculiar centro cosmopolita do mundo

 

Zé Beto Maciel

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Tal qual escrevem Wilson Bueno, em Mar Paraguayo, e Douglas Diegues, em Dá Gusto Andar Desnudo por Estas Selvas, cresci envolto a um caldeirão lingüístico que só fez aumentar ao passar dos anos. É assim mesmo. Tenho meus próprios códigos verbais e o mesmo acontece com qualquer pessoa em Foz do Iguaçu. Inexoravelmente, fala uma ou duas línguas a mais além do português, ou até uma mistura delas – o chamado jopara. A tríplice fronteira é uma torre de babel onde brasileiros, argentinos, paraguaios, latinos, árabes, chineses e coreanos dobram a língua junto com os descendentes  de alemães e italianos – os primeiros migrantes  – e outras tantas etnias que se radicaram na região.

 

É comum dar o tradicional “bom dia” em três idiomas diferentes, conforme quem encontrarmos pelo caminho. Línguas unem, diversificam hábitos e culturas, e tornaram esse fantástico canto do cone sul num peculiar centro cosmopolita do mundo. E não é de hoje. A variante lingüística sempre foi uma constante. Uma língua ou outra se revezou  no grau de importância até o predomínio português, bombardeado agora pelo multilinguismo. A língua brasileira, por sua vez sofreu a influencia de duas outras línguas  na formação do seu dialeto local: o espanhol (principalmente) e o guarani.

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A história traz fatos interessantes  sobre a língua  da fronteira. Até 1900 e poucos, a língua que predominava toda a região oeste (incluindo parte da Argentina e o Paraguai inteiro) era o guarani – a língua dos índios, que foi  perdendo a sua importância na medida em que os mesmos  foram sendo dizimados ou se aculturando. Depois da implantação da colônia militar  na cidade em 1889, outra língua passou a dar as cartas. Engana-se quem pensou que foi o português. Era o espanhol. O Brasil já tinha o domínio  de sua fronteira, mas  não da língua. O historiador paranaense  Ruy Waichovicz,  traz  no seu livro – “A História do Paraná”, intrigante depoimento de uma cozinheira  na década  de 30. Recenseada na época, a cozinheira não pensou duas vezes e tascou um “soy brasileña, graças a dios” aos pesquisadores.

 

Ocupação – O português só começou a mandar no jogo com a literal ocupação da  região pelos gaúchos (italianos e alemães, na sua maioria) a partir das décadas de 40 e 50. A gauchada que trouxe o churrasco e chimarrão, modificou o sotaque regional com os “parlari” e as carroças com um erre só. A força da invasão gaúcha repeliu a “indiarada” e trouxe preconceito contra a língua guarani (e o povo paraguaio) que ainda hoje é marcante. O espanhol e os argentinos não sofreram tanto porque o país da “plata” estava passando por “desarollo” econômico, se transformando na Suíça da América Latina na década de 50.

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Mesmo sofrendo reveses do preconceito econômico e cultural, muitos “xiruns” se fixaram por essas bandas. O Paraguai também não era nenhuma ilha de tranqüilidade democrática e a toda quartelada  de colorados ou liberais, los paraguayos cruzavam o rio Paraná, se exilaram por aqui, trazendo costumes, danças e, principalmente, o léxico guarani. Ainda nos idos  de 50 e 60, as autoridades locais não entendiam muito bem o guarani, o que sempre trazia problemas aos irmãos  paraguaios. Meu pai, José Maciel, era tradutor no fórum local. Ele, iguaçuense, descendente  de paraguaio e estudioso do guarani (sabia ler e escrever), era convocado nessa época, toda vez que o réu em julgamento era paraguaio. Nas conversas com meu pai, ele me disse que acontecia muita briga de faca e os paraguaios se defendiam bem. Às vezes feriam um brasileiro, outras vezes até matavam em defesa própria. Quando iam para julgamento eram condenados porque não sabiam expressar uma só palavra em português  para sua própria defesa. Daí  o juiz na época convocava meu pai para traduzir e perguntar aos paraguaios.

 

Nuestros filhos – Meu pai também me contou que a  maior dificuldade na sua infância era aprender o português na Escola Bartolomeu Mitre (ditador argentino). Ele saia bem em outras matérias, mas o português era uma  dificuldade que se tornava maior porque  na sua casa ninguém dava importância para  língua. Nós, os filhos, incorporaram várias palavras guaranis no dia a dia da família. Nós aportuguesamos a palavra “guaú” que significa entre outras coisas, algo como mentira  ou brincadeira. Então quando um irmão descia o braço no outro, logo dizia: d’guaú, que para nós passou a significar “de brincadeira”, “de mentira”.

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Depois dos paraguaios vieram os árabes na década de 60. Os “turcos”, como até pouco tempo eram chamados, invadiram as duas fronteiras (Brasil e Paraguai) mais na década de 70. Hoje, fazem parte do cotidiano da cidade e os “salamaleicom” e “chucran” são verbetes assumidos por todo comerciante não-árabe  quando atende “um brimo”. A língua árabe está totalmente incorporada  na cidade embora das restrições da sua escrita. Os árabes também lêem da direita para esquerda, ao contrário das línguas ocidentais (que se lê da esquerda  para a direita). Outro problema: o alfabeto árabe é formado por letras que formam ideogramas frases. Chineses e coreanos foram últimas  a embarcarem no caldeirão  lingüístico. Além do poder econômico, o mandarim corre solto nos bares, confeitarias, escolas, supermercados e até danceterias da cidade.

 

Em pleno século 21, Foz do Iguaçu vive o multilinguísmo  descrito no clássico “Blader Runner (O Caçador de Andróide), filme de  Ridley Scott. A fita mostra que a língua falada numa grande metrópole de 2025 é um “codemixing” (mistura de línguas) de vários dialetos. Acredito que somos igual a Zelig – personagem do filme de Woody Allen – que mimetiza as transformações físicas conforme o grupo em que vivia. Em particular, os iguaçuenses têm ainda muito do manifesto antropofágico de Oswald de Andrade que pregava mais ou menos o seguinte: deglutir tudo o que vem de fora e vomitar para fora, ou usar, conforme a gente quer. Tupi or not Tupi, that is the question.

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A crescente atividade econômica ligada ao turismo e as compras paraguaias potencializaram também a mixórdia lingüística. A cidade é a segunda escala no Brasil para o turismo internacional. Guia de turismo que não domina uma (inglês) ou mais línguas, tem o seu mercado de trabalho reduzidíssimo. A preferência do turismo internacional trouxe também uma leva de profissionais estrangeiros que trabalham em diversas áreas de prestação de serviços. Temos bailarinos argentinos que dançam nas casas de shows. Americanos proprietários de agências de turismo; franceses livreiros e portugueses hoteleiros. Outro fenômeno verificado que exemplifica a integração lingüística  são os casais bilíngües. Brasileiras são casadas com paraguaios, argentinas com coreanos. A integração latino-americana pode ser puxada por fatores econômicos, mas os “nuestros filhos” comprovam que o multilinguismo moldou a cultura da tríplice fronteira.

 

*Baê la porte, chera’á? – é um jopara guarani-espanhol que pode ser traduzido assim: como vão as coisas, meu amigo?

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Zé Beto Maciel é jornalista

 

“Soy brasileña, graças a dios”, disse uma cozinheira recenseada nos 30. O guarani e o espanhol predominaram até os anos 50

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Foz do Iguaçu vive o multilinguísmo  descrito no clássico “Blader Runner (O Caçador de Andróide), filme de  Ridley Scott

 

Eu e a minha família temos nossos próprios códigos linguísticos comuns para os que vivem na tríplice fronteira

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